Quiz Somiti
Síndrome de abstinência alcoólica na UTI
24 de setembro de 2026

Manejo em duas etapas

Controle agudo e prevenção de recaída no paciente hepatopata

 

SITUAÇÃO CLÍNICA
Homem de 58 anos, com cirrose relacionada ao álcool e transtorno por uso de álcool, internado em leito de Terapia Intensiva após interrupção abrupta do consumo. Evolui com tremor intenso, sudorese, agitação, taquicardia e hipertensão, compatíveis com síndrome de abstinência alcoólica. Não apresenta encefalopatia hepática no momento. Recebe benzodiazepínico titulado e monitorização contínua, com estabilização do quadro nas primeiras 48 horas. Mesmo após a estabilização inicial, permanece com risco de recorrência da síndrome de abstinência e alto risco de recaída, exigindo vigilância contínua e planejamento terapêutico.

 

 

APÓS O CONTROLE DA FASE AGUDA
Qual opção farmacológica apresenta evidência específica em pacientes com cirrose relacionada ao álcool e pode ser considerada para a manutenção da abstinência, com acompanhamento clínico?

 

 

Pergunta única

A   O baclofeno é a opção com evidência randomizada específica em pacientes com cirrose relacionada ao álcool e pode ser considerado, após a estabilização da abstinência aguda, para manutenção da abstinência, com acompanhamento clínico.

 

B   A naltrexona deve ser escolhida como primeira opção em qualquer estágio da doença hepática relacionada ao álcool, inclusive na hepatite alcoólica e na cirrose descompensada.

 

C   O dissulfiram é preferível na cirrose porque não apresenta preocupação relevante com hepatotoxicidade.

 

D   Os benzodiazepínicos devem ser mantidos indefinidamente após a alta da UTI para prevenir recaídas e manter a abstinência.

 

COMANDO CLÍNICO
Diferencie sempre duas etapas: tratamento da abstinência aguda e prevenção de recaída.

 

 

Dr Elton Henrique Alves

Intensivista Titulado pela AMIB  •  Cardiologista Titulado pela SBC

Raciocínio clínico no paciente crítico  •  Do interior de Minas Gerais para as UTIs do Brasil

Comunidade Além da UTI

 

 

GABARITO COMENTADO

Resposta correta: A — Baclofeno

A MENSAGEM CENTRAL
O tratamento da síndrome de abstinência alcoólica grave na UTI é uma etapa distinta da prevenção de recaída. Na fase aguda, benzodiazepínicos são o tratamento de escolha, com titulação e monitorização cuidadosas em pacientes com doença hepática, devido ao risco de precipitar ou agravar encefalopatia hepática. Depois da estabilização, o baclofeno pode ser considerado para manutenção da abstinência. (1, 3)

 

 

A EVIDÊNCIA QUE SUSTENTA A ESCOLHA
No ensaio clínico randomizado de Addolorato et al., 84 pacientes com cirrose relacionada ao álcool foram acompanhados por 12 semanas. A abstinência foi alcançada e mantida por 30 de 42 pacientes que receberam baclofeno (71%), contra 12 de 42 no grupo placebo (29%), com OR 6,3; IC 95%, 2,4–16,1. Não foram registrados efeitos hepáticos no estudo. (1, 2)

 

 

Comentários das alternativas

A  —  CORRETA
O baclofeno é a alternativa respaldada pelo ensaio randomizado específico em cirrose relacionada ao álcool. A indicação no cenário proposto é pós-estabilização da abstinência aguda, como estratégia de manutenção da abstinência, e não como substituto do benzodiazepínico na fase de resgate. A dose de 10 mg, três vezes ao dia, foi a dose estudada no ensaio clássico; a aplicação clínica exige individualização e monitorização.

 

 

B  —  INCORRETA
A naltrexona pode ser considerada em pacientes selecionados, especialmente quando não há cirrose ou hepatite alcoólica ativa. Entretanto, não deve ser apresentada como primeira opção automática em qualquer estágio da doença hepática. Em cirrose descompensada ou hepatite alcoólica, recomenda-se cautela. (1, 3)

 

 

C  —  INCORRETA
O dissulfiram não é uma escolha segura ao longo do espectro da doença hepática relacionada ao álcool. A preocupação com hepatotoxicidade é justamente uma razão para evitá-lo nesse contexto.

 

 

D  —  INCORRETA
Benzodiazepínicos são fundamentais para a fase aguda da abstinência alcoólica grave, mas não devem ser mantidos indefinidamente como prevenção de recaída. Em pacientes com doença hepática, seu uso requer cautela e reavaliação frequente pelo risco de encefalopatia.

 

 

 

 

LEITURA CRÍTICA

O que levar para a prática

1. Fase aguda
Síndrome de abstinência alcoólica grave exige tratamento imediato, ambiente monitorizado e benzodiazepínico titulado. Em hepatopatas, a prescrição deve ser cautelosa porque sedação excessiva pode precipitar ou agravar encefalopatia hepática. (3)

 

 

2. Fase de manutenção
Após a estabilização clínica, a prioridade é sustentar abstinência ou reduzir consumo com abordagem integrada. O baclofeno tem a evidência randomizada mais diretamente aplicável à cirrose relacionada ao álcool entre as opções discutidas neste quiz. (1, 2)

 

 

3. Segurança e seguimento
Baclofeno não deve ser interrompido abruptamente, pois a retirada súbita pode causar eventos adversos graves. Avalie função renal, sedação, estado mental, risco de quedas, interações e adesão. A farmacoterapia deve ser integrada a intervenção motivacional, psicoterapia e seguimento especializado quando disponíveis.

 

NOTA DE SEGURANÇA
Este quiz é educacional. A escolha do medicamento, a dose e a velocidade de titulação dependem do quadro clínico, da gravidade da doença hepática, da função renal e dos protocolos institucionais.

 

Nota de segurança

Este quiz é um material educacional para discussão entre profissionais de saúde. A resposta não substitui avaliação individual, estratificação da gravidade da doença hepática, investigação de comorbidades, manejo da síndrome de abstinência aguda ou acompanhamento especializado em hepatologia e adicção.

Referências

[1] Krag A, Åberg F, Mellinger J, Lee BP, Israelsen M. Alcohol-Related Liver Disease: A Review. JAMA. Publicado online em 6 jul 2026. doi: 10.1001/jama.2026.12038.

[2] Addolorato G, Leggio L, Ferrulli A, et al. Effectiveness and safety of baclofen for maintenance of alcohol abstinence in alcohol-dependent patients with liver cirrhosis: randomised, double-blind controlled study. Lancet. 2007;370(9603):1915–1922. doi: 10.1016/S0140-6736(07)61814-5.

[3] Jophlin LL, Singal AK, Bataller R, et al. ACG Clinical Guideline: Alcohol-Associated Liver Disease. Am J Gastroenterol. 2024;119(1):30–54. doi: 10.14309/ajg.0000000000002572.

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