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Raciocínio Clínico no Paciente Crítico: Destrinchando Fenótipos Associados no Choque
25 de junho de 2026

CASO CLÍNICO

Um paciente de 55 anos, em tratamento para pneumonia grave comunitária, evolui no 2º dia de UTI com piora da hipotensão (PA 72/40 mmHg) e hipoperfusão tecidual, a despeito de já estar recebendo noradrenalina em doses crescentes (0,5 mcg/kg/min) e ter recebido 30 mL/kg de cristaloides nas primeiras 6 horas. A avaliação hemodinâmica com POCUS (Point-of-Care Ultrasound) revela os seguintes achados:

• Ventrículo Esquerdo (VE): Dimensões normais, porém com hipocinesia difusa moderada.
• VTI (Velocity Time Integral) da via de saída do VE (LVOT): 18 cm (normal).
• Ventrículo Direito (VD): Tamanho normal, TAPSE 18 mm, sem desvio septal.
• Veia Cava Inferior (VCI): Diâmetro de 2,2 cm, com colabamento inspiratório mínimo (< 10%).
• Ultrassom Pulmonar: Presença de múltiplas linhas B difusas e bilaterais, associadas a consolidações subpleurais nas bases.

Com base na integração clínico-ecocardiográfica para destrinchar os fenótipos deste choque, assinale a alternativa CORRETA:

 

 

ALTERNATIVAS

  1. A) O quadro é compatível com choque distributivo puro não responsivo a volume, sendo a hipocinesia do VE uma consequência direta da intensa vasoplegia e baixa pós-carga. O VTI normal (18 cm) reflete compensação adequada do débito cardíaco. A conduta prioritária é associar vasopressina para elevar a resistência vascular sistêmica e otimizar o retorno venoso.
  2. B) O paciente apresenta um choque obstrutivo secundário a cor pulmonale agudo pela pneumonia, conforme evidenciado pela VCI dilatada e fixa. O VTI normal (18 cm) reflete compensação do VD. Justifica-se o início imediato de óxido nítrico inalatório e avaliação para trombólise empírica.
  3. C) Trata-se de fenótipos associados com componente distributivo (vasoplégico) principal e componente cardiogênico secundário (miocardiopatia induzida pela sepse). A hipocinesia do VE, o VTI normal (18 cm), a VCI pletórica e as linhas B indicam falência sistólica aguda com intolerância a fluidos. A conduta prioritária é suspender novas expansões volêmicas e iniciar suporte inotrópico (ex: dobutamina) associado ao vasopressor.
  4. D) O padrão de VCI dilatada e linhas B difusas confirma a presença de tamponamento cardíaco ou derrame pericárdico volumoso mascarado pelo quadro séptico. O VTI normal de 18 cm descarta restrição ao enchimento diastólico, sendo a pericardiocentese de alívio o passo salvador antes de qualquer ajuste de drogas vasoativas.

GABARITO E COMENTÁRIOS TÉCNICOS

Resposta Correta: Alternativa C

Alternativa A (Incorreta – Distributivo Puro): No choque distributivo puro (vasoplégico clássico), a intensa vasodilatação reduz a pós-carga, levando a um aumento do débito cardíaco. O POCUS tipicamente revelaria um VE hiperdinâmico, com VTI ELEVADO (> 20-24 cm). Neste caso, o VTI é NORMAL (18 cm), o que é uma pérola clínica crucial: em um choque com fenótipos associados, o componente vasoplégico (que aumentaria o VTI) está sendo ANULADO pelo componente cardiogênico (que o reduziria). A presença de hipocinesia difusa com VTI normal, portanto, é a “assinatura” dos fenótipos associados. Se fosse apenas distributivo, o VTI estaria elevado. Associar vasopressina pode até aumentar a PA, mas aumentaria ainda mais a pós-carga sobre um VE já com disfunção miocárdica, podendo piorar o débito cardíaco se não houver suporte inotrópico concomitante.

Alternativa B (Incorreta – Obstrutivo / Cor Pulmonale): Embora a VCI dilatada seja comum no choque obstrutivo por falha de VD (TEP, cor pulmonale agudo), o POCUS descrito descarta essa hipótese ao relatar um VD de tamanho normal, função preservada (TAPSE 18 mm) e ausência de desvio septal. A disfunção primária aqui é do Ventrículo Esquerdo (hipocinesia difusa), e a VCI pletórica reflete a congestão venosa sistêmica retrógrada devido à falência do VE, agravada pela ressuscitação volêmica prévia (30 mL/kg).

Alternativa C (Correta – Fenótipos Associados): Este é o diagnóstico preciso. O choque séptico raramente é um fenótipo hemodinâmico único e estático. Aproximadamente 40-60% dos pacientes com sepse grave desenvolvem miocardiopatia induzida pela sepse (sepsis-induced cardiomyopathy – SIC), caracterizada por disfunção sistólica e/ou diastólica aguda e reversível. O POCUS destrincha os componentes perfeitamente: (1) O componente distributivo (vasoplégico) é inferido pela necessidade de noradrenalina em altas doses; (2) O componente cardiogênico é provado pela hipocinesia difusa. Mas aqui está a nuance crítica: o VTI NORMAL (18 cm) é a pérola clínica. Em um choque séptico distributivo puro, o VTI seria elevado (> 22 cm). Em uma miocardiopatia séptica pura, o VTI seria reduzido (< 16 cm). O VTI normal é a ASSINATURA dos fenótipos associados: o componente vasoplégico (que aumenta o débito) está sendo cancelado pelo componente cardiogênico (que o reduz). (3) O status de tolerância a fluidos é esgotado, evidenciado pela VCI pletórica e linhas B pulmonares difusas (congestão e edema pulmonar). Continuar dando fluidos neste cenário seria iatrogênico. A conduta correta é reconhecer os fenótipos associados e adicionar suporte inotrópico (dobutamina ou milrinona) para melhorar a contratilidade e o VTI, mantendo o vasopressor para o componente distributivo.

Alternativa D (Incorreta – Tamponamento Cardíaco): O tamponamento cardíaco causa VCI dilatada e VTI reduzido, mas a disfunção descrita no caso (hipocinesia difusa) é intrínseca ao miocárdio, não extrínseca. Além disso, não há menção a derrame pericárdico no exame, e as linhas B difusas (edema pulmonar) não são típicas do tamponamento (onde os pulmões geralmente estão “secos” devido à falha do coração direito em enviar sangue para o leito pulmonar). O padrão de linhas B reflete falência ventricular esquerda.

 

 

PÉROLAS CLÍNICAS: DESTRINCHANDO FENÓTIPOS ASSOCIADOS

  1. A Assinatura dos Fenótipos Associados: VTI NORMAL com Hipocinesia: Distributivo puro → VTI elevado (> 22 cm). Cardiogênico puro → VTI reduzido (< 16 cm). Fenótipos associados → VTI normal (18-20 cm) com hipocinesia. O VTI normal NÃO significa que o coração está bem; significa que dois fenótipos opostos estão se anulando. Reconhecer essa nuance é crítico para não cometer erros terapêuticos.
  2. Hipocinesia + VTI Normal = Alerta para Inotrópico: Um paciente com hipocinesia difusa e VTI normal (ou até elevado) em choque séptico tem miocardiopatia séptica mascarada pelo componente distributivo. Escalar apenas vasopressor aumentará a pós-carga e piorará o débito. Inotrópico é mandatório.
  3. Linhas B + VCI Pletórica = Pare os Fluidos: A presença de congestão pulmonar (linhas B) e venosa sistêmica (VCI dilatada e fixa) decreta o fim da tolerância a fluidos. A partir deste ponto, fluidos não aumentarão o débito cardíaco e piorarão a congestão de órgãos (rins, fígado, pulmões).
  4. Inotrópico Guiado por Alvo: O uso de dobutamina no choque séptico deve ser reservado para pacientes com evidência ecocardiográfica de disfunção miocárdica (hipocinesia) e sinais contínuos de hipoperfusão. O POCUS seriado permite titular a droga observando a melhora do VTI (que deve aumentar com o inotrópico).
  5. O Choque Séptico é Dinâmico: Fenótipos Evoluem: O fenótipo pode mudar ao longo do tempo. Um paciente que começa com distributivo puro pode evoluir para fenótipos associados e depois para cardiogênico puro. O POCUS seriado (a cada 2-4 horas) é essencial para reconhecer essas mudanças e adaptar a terapia em tempo real.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • Alves, EH. Abordagem do Choque: Compilado visual e prático para uso clínico à beira do leito. Raciocínio clínico no paciente crítico. 2026.
  • Kaselitz TB, Seymour CW. Point-of-Care Ultrasound in Sepsis and Septic Shock. JAMA Insights. Published online March 17, 2025. doi:10.1001/jama.2025.1983
  • Salinas P, Sohn J, Díaz-Gómez JL. A Critical Care Echocardiography—Driven Approach to Undifferentiated Shock. Texas Heart Institute Journal. 2023;50(5):e228075.
  • Rowe M, Ferrada P. Ultrasound to guide critical decisions: What you need to know. Journal of Trauma and Acute Care Surgery. 2026.
  • Vieillard-Baron A, Millington SJ, Sanfilippo F, et al. A decade of progress in critical care echocardiography: a narrative review. Intensive Care Medicine. 2023;49(5):531-548.
  • Lancellotti P, Price S, Edvardsen T, et al. The use of echocardiography in acute cardiovascular care: recommendations of the European Association of Cardiovascular Imaging and the Acute Cardiovascular Care Association. European Heart Journal – Cardiovascular Imaging. 2015;16(2):119-146.

 

 

Elaborado por Dr. Elton Henrique Alves
Intensivista | Cardiologista | AMIB | SBC
@drelton.cor.intensivo

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