QUIZ SEMANAL — SOMITI
LACTATO VENOSO PERIFÉRICO ELEVADO: PODEMOS CONFIAR?
📋 CASO CLÍNICO
Paciente do sexo masculino, 68 anos, hipertenso e diabético, dá entrada na UPA com febre de 38,9 °C, hipotensão (PA 85 × 55 mmHg), taquicardia (FC 122 bpm) e rebaixamento do nível de consciência. Suspeita de choque séptico de foco urinário. O serviço não dispõe de gasometria arterial imediata. É coletada amostra de sangue venoso periférico e o resultado retorna com Lactato venoso periférico = 3,8 mmol/L.
A equipe discute se deveria ou não acreditar nesse valor para guiar a ressuscitação hemodinâmica.
❓ PERGUNTA
Diante de um lactato venoso periférico ELEVADO (≥ 2 mmol/L) em paciente com choque séptico, qual das afirmativas abaixo melhor reflete a acurácia desse parâmetro para estimar o lactato arterial e guiar a conduta clínica?
A) O lactato venoso periférico elevado é altamente confiável para estimar o valor arterial, podendo ser usado de forma intercambiável com o arterial em qualquer cenário clínico.
B) O lactato venoso periférico elevado apresenta baixa acurácia para estimar o valor do lactato arterial: existe viés positivo de ~0,18–1,06 mmol/L, limites de concordância amplos e taxa de erro de classificação de ~8%; portanto, se elevado, o arterial deve ser confirmado.
C) O lactato venoso periférico, quando elevado, superestima consistentemente o lactato arterial em todos os pacientes, tornando-o um exame inútil na sepse.
D) O lactato venoso periférico normal (< 2 mmol/L) e o elevado têm a mesma acurácia para excluir hiperlactatemia arterial, não sendo necessária qualquer distinção entre esses cenários.
Já sabe a resposta? Conte aqui qual é a alternativa!
Resposta no final do dia.
✅ GABARITO: ALTERNATIVA B
B — CORRETA ✅
Esta é a resposta que reflete com precisão a evidência atual. Metanálises e revisões sistemáticas (van Tienhoven et al., 2019; Pampei et al., 2018) demonstram que o lactato venoso periférico ELEVADO apresenta viés positivo de ~0,18 a 1,06 mmol/L em relação ao arterial — ou seja, ele SUPERESTIMA o arterial de forma inconsistente. Os limites de concordância são amplos, a taxa de erro de classificação chega a ~8% (Joyes et al., 2021) e a correlação r ≈ 0,76 não é suficiente para uso clínico isolado.
Conclusão prática: se o venoso periférico está elevado → confirmar com arterial. Se o venoso CENTRAL (CVC) estiver disponível, este sim é o melhor substituto do arterial (r ≈ 0,99; concordância clínica de ~96,3%; viés médio de apenas ~0,13 mmol/L).
💬 COMENTÁRIOS DAS ALTERNATIVAS
A — INCORRETA ❌
Embora o lactato venoso periférico NORMAL (< 2 mmol/L) tenha boa acurácia para EXCLUIR hiperlactatemia arterial (100% de sensibilidade na maioria dos estudos), o mesmo não vale quando o valor está ELEVADO. Quando ≥ 2 mmol/L, a concordância com o arterial deteriora significativamente: a correlação é apenas moderada (r ≈ 0,76), os limites de concordância pelo método de Bland-Altman são amplos e os valores NÃO são intercambiáveis. Portanto, usar o lactato venoso periférico elevado como substituto perfeito do arterial é uma prática clinicamente perigosa.
C — INCORRETA ❌
Dizer que o lactato venoso periférico é “inútil na sepse” é um exagero não suportado pela literatura. Seu papel de triagem é legítimo: um valor NORMAL (< 2 mmol/L) exclui hiperlactatemia arterial com alta sensibilidade. O problema não é que o exame é inútil, mas sim que seu resultado ELEVADO tem baixa acurácia para estimar o valor arterial exato.
D — INCORRETA ❌
Esta afirmativa ignora a distinção fundamental: o comportamento do lactato venoso periférico é DIFERENTE conforme o nível. Quando < 2 mmol/L, possui alta acurácia para excluir hiperlactatemia; quando ≥ 2 mmol/L, a concordância é ruim. Tratar os dois cenários como equivalentes pode levar a erros clínicos importantes.
🔑 MENSAGEM PRÁTICA FINAL
[13/04/2026 14:01] Geovane: ✔ Lactato venoso periférico NORMAL (< 2 mmol/L) → Exclui hiperlactatemia arterial com boa acurácia.
✘ Lactato venoso periférico ELEVADO (≥ 2 mmol/L) → Baixa acurácia para estimar o arterial: confirme com gasometria arterial.
⭐ Lactato venoso CENTRAL → Melhor substituto do arterial (r ≈ 0,99; concordância ~96,3%).
📚 REFERÊNCIAS
van Tienhoven AJW et al. (2019)
Pampei AI et al. Eur J Emerg Med, 2018
Nascente APM et al. Sao Paulo Med J, 2011
Middleton P et al. Crit Care, 2006
Joyes JM et al. Int J Clin Pract, 2021
Dr. Elton Henrique Alves
Médico pela UFJF
Intensivista pela AMIB
Cardiologista pela SBC
Coordenador UTI SCM Piumhi-MG
Corpo Clínico UTI SCM Passos-MG
Preceptor Faculdade de Medicina Atenas Passos-MG.

