Pergunta
Em relação ao termo “choque misto” na prática clínica atual, qual afirmação está mais alinhada com a abordagem contemporânea do choque na terapia intensiva?
Alternativas
- A) O termo “choque misto” deve ser evitado porque quadros com mais de um mecanismo de choque praticamente não existem na prática.
- B) O termo “choque misto” foi oficialmente substituído por “choque distributivo” nas principais diretrizes internacionais.
- C) O termo permanece útil, pois descreve precisamente a combinação de choque séptico e cardiogênico em muitos pacientes críticos.
- D) O termo é reservado exclusivamente para pacientes com choque hemorrágico associado à insuficiência cardíaca direita grave.
- E) O termo “choque misto” é pouco específico e a tendência atual é descrever o fenótipo hemodinâmico predominante (vasoplégico, cardiogênico, hipovolêmico ou obstrutivo) com seus componentes associados.
Definição de SICM
O termo SICM refere-se à Sepsis-Induced Cardiomyopathy (ou Sepsis-Induced Myocardial Dysfunction), isto é, disfunção miocárdica aguda induzida pela sepse, geralmente transitória, caracterizada por redução da contratilidade sistólica e/ou diastólica de um ou ambos os ventrículos, habitualmente reversível em 7–10 dias quando o paciente sobrevive.
Gabarito
Alternativa correta: E.
Comentários das alternativas
- A) Incorreta. Quadros com mais de um mecanismo de choque são comuns na UTI (por exemplo, séptico + cardiogênico, vasoplégico + hipovolêmico, obstrutivo + cardiogênico). O problema não é a raridade desses casos, e sim o fato de o rótulo “choque misto” ser pouco específico para guiar a terapêutica.
- B) Incorreta. As classificações atuais continuam descrevendo quatro grandes mecanismos – hipovolêmico, distributivo/vasoplégico, cardiogênico e obstrutivo. Nenhuma diretriz substituiu formalmente “choque misto” por “choque distributivo”; a mudança é de enfoque, preferindo descrever o fenótipo/componente predominante e os mecanismos associados.
- C) Incorreta. A combinação de choque séptico com componente cardiogênico é frequente, mas a abordagem moderna recomenda especificar o fenótipo, por exemplo: “choque vasoplégico predominante com componente cardiogênico por SICM”, em vez de usar apenas o rótulo amplo “choque misto”.
- D) Incorreta. Não há qualquer base em diretrizes ou revisões para reservar o termo “choque misto” exclusivamente para choque hemorrágico associado à insuficiência de ventrículo direito. É uma afirmação propositalmente equivocada.
- E) Correta. A literatura recente considera o termo “choque misto” pouco específico e defende descrever o fenótipo hemodinâmico predominante (vasoplégico, cardiogênico, hipovolêmico ou obstrutivo) e os componentes associados, o que orienta melhor a priorização terapêutica.
Autoria e contato
Dr Elton Henrique Alves
Intensivista Titulado pela AMIB
Cardiologista Titulado pela SBC
Coordenador UTI SCM Piumhi-MG
Raciocínio clínico no paciente crítico
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Referências (resumidas)
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Standl T, et al. Tipos de choque na prática clínica. Editora Pasteur.
SanarMed. Choque: definição, tipos, quadros clínicos e manejo inicial. 2025.

