Caso Clínico: POCUS no Choque, do sinal à decisão que salva
Você é chamado para reavaliar um paciente de 68 anos na UTI, em quadro de choque séptico vasoplégico (foco infeccioso abdominal em tratamento). O paciente encontra-se hipotenso (PA 80×40 mmHg) em uso de noradrenalina em doses crescentes, com sinais francos de hipoperfusão tecidual (lactato 5.2 mmol/L, tempo de enchimento capilar > 5 segundos e livedo reticular).
Ao realizar o POCUS focado, o residente relata aliviado: “Chefe, o coração está batendo bem pelo eyeballing e a inteligência artificial (IA) do ultrassom portátil estimou uma Fração de Ejeção (FEVE) preservada, em torno de 55%”. No entanto, você, buscando refinar a avaliação do inotropismo intrínseco (Elastância Máxima – Emax), aciona o Modo M e o Doppler Tecidual (TDI) e encontra um MAPSE reduzido de 7 mm (valor normal > 10 mm) e uma onda S’ no anel mitral lateral reduzida de 5 cm/s (valor normal > 8 cm/s).
Com base na integração da hemodinâmica beira-leito, na fisiologia da Emax e no achado ecocardiográfico, assinale a interpretação e conduta corretas:
- A) A Fração de Ejeção está mascarando a disfunção contrátil por ser altamente dependente da pós-carga; a vasoplegia profunda do paciente facilita o esvaziamento ventricular, gerando uma FEVE falsamente normal. A onda S’ e o MAPSE reduzidos desmascaram a queda da Elastância Máxima (Emax) e a falência miocárdica intrínseca. O paciente apresenta um fenótipo de choque séptico vasoplégico com componente de miocardiopatia séptica, havendo indicação de associar um inotrópico para otimizar o débito cardíaco.
- B) A Elastância Máxima (Emax) é perfeitamente representada pela Fração de Ejeção, que é um índice independente de carga. A onda S’ e o MAPSE reduzidos refletem primariamente disfunção diastólica (lusitropismo prejudicado). A conduta ideal é introduzir beta-bloqueador de ação ultracurta para lentificar a frequência e melhorar o enchimento ventricular.
- C) O Doppler Tecidual (Onda S’) e o MAPSE sofrem grande influência da pré-carga, e seus valores reduzidos neste contexto apenas confirmam que o paciente está severamente hipovolêmico, o que explica o lactato elevado. A conduta restringe-se a infusão agressiva de cristaloides em bolus até a normalização destas variáveis, sem necessidade de inotrópicos.
- D) A discrepância entre a FEVE normal e as variáveis longitudinais (S’ e MAPSE) reduzidas indica um erro técnico de alinhamento do cursor do ultrassom. Como o paciente apresenta vasoplegia, a força contrátil do ventrículo (Emax) não é afetada pela sepse. A adição de inodilatadores é absolutamente contraindicada por risco de piora da hipotensão.
GABARITO E COMENTÁRIOS DA QUESTÃO
Alternativa Correta: A
Comentário Alternativa A (CORRETA): Brilhante integração fisiológica e fenotípica. A Fração de Ejeção (FEVE) não é sinônimo de contratilidade (Emax); ela é uma medida de acoplamento ventrículo-arterial drasticamente influenciada pelas condições de carga. Em um paciente vasoplégico (baixa resistência sistêmica/baixa pós-carga), um ventrículo ‘doente’ consegue ejetar o sangue com facilidade, gerando uma FEVE normal ao eyeballing e estimada pela IA. Contudo, a contração longitudinal — avaliada de forma prática pelo MAPSE e pela onda S’ — é um marcador mais precoce, robusto e menos dependente de carga do inotropismo basal. Um S’ de 5 cm/s e MAPSE de 7 mm denunciam falência miocárdica (Emax reduzida). Esse cenário clássico configura o fenótipo de choque séptico vasoplégico com componente de miocardiopatia séptica, tornando o suporte inotrópico essencial para recuperar o fluxo tecidual, abandonando o conceito antigo e impreciso de ‘choque misto’.
Comentário Alternativa B (INCORRETA): Conceito trocado. A FEVE é totalmente dependente de carga. A onda S’ sistólica e o MAPSE avaliam a mecânica contrátil longitudinal (inotropismo), e não o relaxamento diastólico. Usar beta-bloqueador num choque com falência de bomba evidente pioraria o quadro letalmente.
Comentário Alternativa C (INCORRETA): Embora a onda S’ e o MAPSE sofram discreta influência das condições de carga, eles são muito menos sensíveis a isso do que a FEVE ou a distensibilidade radial. Valores severamente reduzidos no contexto de choque franco apontam para falha contrátil (miocardiopatia séptica), não apenas hipovolemia. Dar fluidos excessivos para um ventrículo falido causará congestão pulmonar rápida e agravará a disóxia.
Comentário Alternativa D (INCORRETA): A miocardiopatia induzida pela sepse é uma complicação frequente que deprime a Elastância Máxima (Emax). A discrepância entre FEVE normal e índices longitudinais baixos é o comportamento hemodinâmico clássico do coração doente ejetando contra um sistema arterial vasoplégico, e não um erro técnico. Identificar este fenótipo é fundamental para a introdução precoce de inotropismo.
REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS E LEITURA SUGERIDA
- Klabunde RE. Cardiovascular Physiology Concepts. 3rd ed. Wolters Kluwer; 2021.
- Sanfilippo F, et al. Tissue Doppler evaluation of myocardial function in severe sepsis and septic shock. Intensive Care Med. 2015.
- Blanco P. Racionalidade hemodinâmica no paciente crítico. Rev Bras Ter Intensiva. 2019.
- Becher PM, et al. Septic cardiomyopathy: from pathophysiology to the clinical setting. Intensive Care Med. 2022.
Autoria: Dr. Elton Henrique Alves
Médico Intensivista RQE 30.651 | Cardiologista RQE 37.610
Intensivista Titulado pela AMIB | Cardiologista Titulado pela SBC
Comunidade Além da UTI

