Autoria: Dr. Elton Henrique Alves, Médico Intensivista e Cardiologista
Pergunta
Na PAV (Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica), qual é a melhor escolha para tratamento empírico considerando a literatura atual?
Opções de Resposta
- A) Cefepime
- B) Piperacilina-Tazobactam
Resposta Correta
- A) Cefepime
Comentário sobre a resposta correta (A – Cefepime)
O cefepime desponta como a escolha preferencial na literatura recente. As novas diretrizes da Surviving Sepsis Campaign (SSC) 2026 recomendam fortemente evitar a cobertura anaeróbia empírica de rotina em pacientes com sepse ou choque séptico que não apresentem fatores de risco específicos para infecção anaeróbia (como infecções intra-abdominais, ginecológicas profundas, ou abscessos). Na PAV, os principais patógenos são tipicamente aeróbios, como Pseudomonas aeruginosa, Acinetobacter spp. e Staphylococcus aureus. O cefepime, sendo uma cefalosporina de 4ª geração com excelente atividade antipseudomonas, oferece a cobertura necessária para Gram-negativos sem o espectro anti-anaeróbio desnecessário. O uso de antibióticos com espectro mais direcionado preserva a microbiota protetora do paciente e está alinhado com as melhores práticas de antimicrobial stewardship.
Comentário sobre a resposta incorreta (B – Piperacilina-Tazobactam)
Embora a piperacilina-tazobactam seja amplamente utilizada em UTIs, seu uso rotineiro na PAV tem sido questionado por causar danos colaterais graves. O artigo publicado em 2025 na The Lancet Respiratory Medicine, intitulado “Empirical antibiotic therapy for sepsis: save the anaerobic microbiota” (Kullberg et al.), descreve claramente os piores desfechos associados ao uso de cobertura empírica anaeróbia de rotina. Os achados do estudo demonstram que a administração de antibióticos anti-anaeróbios em pacientes críticos causa a depleção da microbiota anaeróbia intestinal protetora. Essa grave disbiose altera a imunidade sistêmica e permite a expansão e dominação por bactérias patogênicas, como as Enterobacteriaceae, no intestino. Essas bactérias subsequentemente migram e enriquecem o trato respiratório, resultando em um aumento da mortalidade, menor sobrevida livre de PAV e maior risco de novas infecções. Portanto, a piperacilina-tazobactam amplia desnecessariamente o espectro antimicrobiano de forma deletéria, expondo o paciente a riscos injustificados em um cenário onde a cobertura anaeróbia não traz benefício.
Referências
- Prescott HC, Antonelli M, Alhazzani W, et al. Surviving Sepsis Campaign: international guidelines for management of sepsis and septic shock 2026. Intensive Care Medicine. 2026;52:863-936. DOI: 10.1007/s00134-026-08361-1
- Kullberg RFJ, Haak BW, Chanderraj R, Prescott HC, Dickson RP, Wiersinga WJ. Empirical antibiotic therapy for sepsis: save the anaerobic microbiota. The Lancet Respiratory Medicine. 2025;13(1):92-100. DOI: 10.1016/S2213-2600(24)00257-1
- Chanderraj R, Baker JM, Kay SG, et al. In critically ill patients, anti-anaerobic antibiotics increase risk of adverse clinical outcomes. European Respiratory Journal. 2023;61(2):2200910. DOI: 10.1183/13993003.00910-2022
- Rodríguez A, Berrueta J, Páez C, et al. Ten-Year Evaluation of Ventilator-Associated Pneumonia (VAP) According to Initial Empiric Treatment: A Retrospective Analysis Using Real-World Data. Biomedicines. 2025;13(2):360. DOI: 10.3390/biomedicines13020360

