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Quiz de cardiointensivismo: fibrilação atrial em pacientes críticos
10 de março de 2026

A fibrilação atrial (FA) é uma das arritmias mais frequentes na unidade de terapia intensiva. Em pacientes com choque séptico, o surgimento de fibrilação atrial de início novo (NOAF) representa um desafio adicional, pois envolve instabilidade hemodinâmica, múltiplos gatilhos inflamatórios e decisões terapêuticas complexas.

Para estimular o raciocínio clínico, propomos um quiz de cardiointensivismo baseado no artigo “Atrial Fibrillation in Critical Illness: State of the Art” (2025).

Entre os principais pontos abordados estão:

  • fatores de risco e gatilhos da fibrilação atrial no paciente crítico

  • desafios no diagnóstico e monitoramento na UTI

  • estratégias de tratamento, incluindo controle de frequência versus controle de ritmo

Caso clínico

No contexto de fibrilação atrial de início novo em paciente crítico com choque séptico, surge uma dúvida frequente na prática da terapia intensiva.

Quiz

Sobre o manejo da fibrilação atrial de início novo (NOAF) em pacientes críticos com choque séptico, qual conduta apresenta maior respaldo conforme as evidências atuais?

A. Iniciar anticoagulação imediata se o escore CHA₂DS₂-VASc ≥ 2 nas primeiras 24 horas.

B. Priorizar cardioversão elétrica imediata, devido ao alto sucesso de reversão em pacientes graves.

C. Adotar uma meta de frequência cardíaca leniente, em torno de 130 bpm, em pacientes instáveis.

D. Utilizar amiodarona como primeira escolha para controle de frequência em todos os pacientes estáveis.

Pense na fisiopatologia da sepse, nos efeitos hemodinâmicos das terapias e nas evidências mais recentes antes de conferir a resposta.

Resposta do quiz

A alternativa correta é C. Adotar uma meta de frequência cardíaca leniente, em torno de 130 bpm, em pacientes instáveis.

Na UTI, especialmente em pacientes com choque séptico, metas lenientes de frequência cardíaca podem evitar o uso excessivo de fármacos com potencial de provocar hipotensão ou piora hemodinâmica. Essa estratégia tende a favorecer maior estabilidade circulatória durante a fase crítica da doença.

Em muitos cenários, buscar controle rigoroso da frequência cardíaca pode levar ao uso de múltiplas medicações ou doses elevadas, aumentando o risco de efeitos adversos. Uma abordagem mais conservadora inicialmente pode reduzir complicações e facilitar o manejo global do paciente crítico.

Por que as outras alternativas estão incorretas?

Alternativa A

Iniciar anticoagulação imediata com base no escore CHA₂DS₂-VASc não é uma estratégia bem validada em pacientes de UTI. Esse escore apresenta baixa capacidade preditiva nesse contexto, com desempenho limitado para discriminar risco de AVC em pacientes sépticos.

Além disso, estudos como o AFTER-ICU mostraram que a anticoagulação precoce nas primeiras 48 horas não demonstrou benefício claro na prevenção de AVC isquêmico nesse cenário.

Alternativa B

A cardioversão elétrica apresenta baixa taxa de sucesso em pacientes críticos.

Dados observacionais sugerem que:

  • menos de 30% dos pacientes convertem para ritmo sinusal

  • entre 40% e 60% apresentam recorrência de fibrilação atrial

  • em pacientes com FA pré-existente, o sucesso pode ser ainda menor

Por isso, a cardioversão elétrica costuma ser reservada para instabilidade hemodinâmica aguda, não sendo a primeira escolha em pacientes com choque séptico relativamente estável.

Alternativa D

Embora a amiodarona seja amplamente utilizada na UTI, ela não é necessariamente a melhor primeira escolha para controle de frequência em todos os pacientes.

Estudos comparativos mostram que o controle de frequência pode ocorrer mais rapidamente com betabloqueadores de curta ação. Em alguns trabalhos, por exemplo:

  • esmolol demonstrou controle de frequência em cerca de 64% dos pacientes em 40 minutos

  • amiodarona apresentou taxas próximas de 25% no mesmo intervalo

Além disso, agentes como landiolol, um betabloqueador ultrasseletivo, têm mostrado perfil hemodinâmico favorável, sem aumento significativo da necessidade de vasopressores.

Assim, a amiodarona permanece como opção terapêutica importante, mas não deve ser considerada automaticamente a primeira linha em todos os casos.

Referência científica

Sibley S. et al.
Atrial Fibrillation in Critical Illness: State of the Art.
Intensive Care Medicine, 2025.

Minicurrículo

Dr. Elton Henrique Alves

Médico pela UFJF

Intensivista RQE 30.651

Cardiologista RQE 37.610

Instagram: @drelton.cor.intensivo

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