Aula aborda o tema ‘Grávidas em UTIs’

A primeira aula do Curso para Residentes e Especializandos em Medicina Intensiva (Cremi), neste mês de agosto, dia seis, abordou o tema ‘Grávidas em UTIs’. O módulo foi ministrado no auditório do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM MG) pelo especialista Mauro Moraes de Araújo Gonçalves.

De acordo com Gonçalves, gestante na urgência é uma condição rara, mas de potencial gravidade. Ele justifica a baixa quantidade de estudos sobre o tema, embora reconheça um certo aumento nos últimos anos, devido ao fato das gestantes formarem um grupo excluído de trabalhos randomizados na área de Terapia Intensiva.

Afinal, o que leva as gestantes a serem internadas? Para o médico, existem vários fatores de risco para doenças hemorrágicas dentro da gravidez. “É fundamental reconhecer que, muitas vezes, a doença hipertensiva e a doença hemorrágica acontecem concomitantemente. A doença hipertensiva é causa e fator de risco da hemorrágica”, diz. Idade, doenças prévias e condições pré-gestacionais também colocam em risco a paciente no puerpério.

Para lidar com esse perfil de paciente, ele indica o diagnóstico e o tratamento precoce, a monitorização contínua e o uso do escore OEWS (Obstetric Early Warning Score), que respeita as variáveis fisiológicas da gestação e outras variáveis.


Confira 9 fatos sobre gestantes na UTI

 

É raro encontrar grávidas dentro de UTIs

A cada 1000 admissões em UTIs, uma é de paciente grávida. “Não se espera que isso aconteça na gravidez”, diz. Quando acontece, é bem estressante. “Essas pacientes costumam ter características fisiológicas distintas da média”.

Causas

Há causas diretas da gestação, como sangramento relacionado ao parto e doença hipertensiva, assim como causas indiretas durante o ciclo gravídico, a exemplo de infecção crônica, hepatite C e cirrose.

Indicações de grávidas em CTI

São os fatores que justificam a internação: disfunção circulatória e/ou respiratória grave; disfunção orgânica nova; risco de piora funcional das doenças de base; complicações anestésicas e OEWS maior que 7.

OEWS

Sigla de Obstetric Early Warning Score, essa tabela aponta em uma escala de 0 a 3 em quais valores as variáveis pressão sistólica, pressão diastólica, frequência respiratória, frequência cardíaca, temperatura, saturação e nível de consciência são preocupantes em gestantes. Cada variável é somada e, assim, avalia-se o estado de saúde da gestante. Os valores presentes na escala 0 são esperados na fisiologia e, assim, não marcam pontos no escore de gravidade.

 Outros escores

 Além do OEWS, o mais indicado, há outros escores de prognóstico. O APACHE II superestima gravidade na gestante em até quatro vezes. Já o SOFA possui boa correlação com o near miss e especificidade menor que 70%.

 Causas de admissões de gestantes em UTIs

 Síndromes hemorrágicas e hipertensivas representam até 65% dos casos. Além destes fatores, há a sepse, doenças relacionadas ao sistema circulatório, complicações anestésicas do parto e eventos embólicos.

Alterações fisiológicas na reta final da gestação

A partir da 32a semana, a gestante passa a acumular muito líquido. Consequentemente, o débito cardíaco apresenta significativo aumento. Os mecanismos hormonais vão se adaptando ao longo da gravidez e, ao final deste período, a mulher se encontra hipervolêmica, o que leva a medula a produzir quantidade maior de eletrócitos e glóbulos brancos. A quantidade de hemácias também costuma ser alta nessa fase da gravidez. No entanto, a quantidade de massa de água é maior ainda, produzindo uma anemia dilucional.

 Rede pública

O grande problema dentro do sistema de saúde pública brasileiro é que muitos desses casos são reconhecidos em unidades com menos recursos em cidades do interior e que acabam vindo para uma cidade de maior porte, a exemplo de Belo Horizonte. “Esse transporte muitas vezes coloca a paciente em condições de risco, sendo que o transporte deveria ser feito com a paciente mais estabilizada”. Esse é um grande problema, uma vez que se perde o timing de tratar essa doença grave na sua fase aguda.

Hemorragia puerperal

É fundamental que o profissional de saúde reconheça esta hemorragia. “A grande maioria, cerca de 70%, vem da hipotonia do útero. E isso é uma entidade, um contexto de diagnóstico clínico. Então, o profissional que trabalha com esse grupo de pacientes precisa ter a habilidade de aferir os dados vitais, reconhecer o sangramento na fase aguda do puerpério e fazer apalpamento do abdômen da gestante para reconhecer o tônus uterino”, alerta.

 

As aulas do Cremi acontecem às terças-feiras, 18h30. Inscrições gratuitas. Saiba mais.